“…para mim mesma preparava armadilhas, levantava dúvidas, montava quebra-cabeças que tentava resolver logo adiante.”
Lya Luft | O rio do meio
“…para mim mesma preparava armadilhas, levantava dúvidas, montava quebra-cabeças que tentava resolver logo adiante.”
Lya Luft | O rio do meio
Da insônia e ânsia pela escrita, convidei Lya Luft à minha companhia.
Foi no “rio do meio” que ela me disse:
“Há pessoas que parecem ter nascido mal-equipadas para viver. O mais terno desvelo as incomoda, qualquer afeto desperta suspeitas, talvez se agarrem a fetiches para enfrentar terrores incompreensíveis para os demais. Nasceram sem a proteção da pele: o doce ar da manhã lhes abrirá feridas. São constantemente sugadas para baixo, para alguma escuridão escancarada, por forças que não se deixam definir nem, por isso mesmo, combater com eficiência. Não sabemos ao certo quem é o inimigo, não vemos seu rosto.
Quem estiver ligado a uma pessoa assim conhecerá uma das mais dolorosas e difíceis experiências: a impotência para evitar que alguém amado se aniquile.” [p. 92]
Diante de sua magnitude e sapiência, só me resta entorpercer e adormecer.
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
[Convite | Lya Luft]